No bar, naquele dia, eu cheguei a pensar em você em vários momentos. Mas o que é o amor depois dos 30? Do lado de fora, enquanto conversava com os rapazes e falávamos de sinuca e xoxotas molhadas e cuecas espanholas com dálias grandes e vermelhas, eu flertei com vários. Com vários atores e músicos, desses meio decadentes que estão espalhados pela cidade de São Paulo. Você sabe do que estou falando. Eles estão em toda parte.
Eu dancei, às três da manhã, no palco dos Parlapatões com o elenco todo da trilogia do Sade. Sonhava orgia como Kubrick, com senhas, códigos e máscaras. Tudo bem, não foi como no filme, mas dançamos nus ao som de muito rock and roll. Coisas loucas acontecem na Praça Roosevelt.
Acendi e fumei vários cigarros. Para elas. Para eles. Beijei lábios rosados. Braços bronzeados. Havia um dorso nu e músculos. No qual eu dancei e voei. E você lá no fundo do bar. Olhando. Calça preta, coturno e camisa xadrez. Tem umas coisas nessa vida que não dá pra explicar. O amor não acontece só uma vez.
Me dá sua mão e vamos de novo pra Cidreira ainda no inverno. Vamos andar nus a cavalo por Nova Petrópolis ou pelo interior do Centro-Oeste, pelas fazendas onde o sol desce laranja-avermelhado no horizonte. Vem fazer amor comigo na areia da praia, nas pedras da cachoeira, na grama molhada da manhã. No alto da oficina, onde você faz facas, sob a lua prateada, sobre nossa manta azulada. O resto é só brincadeira de gente grande.
Tudo é triste de repente e eu quero ir. Ir embora pra nunca mais voltar e ter que olhar nos olhos e ver tanta hipocrisia. Não quero morar em outro planeta, nem fama ou dinheiro. Um pouco de poesia pra amar a menina. Um pouco de ternura pra correr pela estrada. Um pouco de vento forte pra fazer literatura. Mas só tem essa dor. Um peso sobre o ventre. A memória do fracasso. Não cabe mais tanta mentira no bolso do meu jeans.
Outro dia caminhei por uma calçada com muitas folhas secas sobre o chão. Era quase uma melodia. De despedida. Pudera transformar-me em folha e fazer aquele barulho seco sob os pés de alguém. Da menina que ainda é criança. De alguém que ainda tem a ingenuidade na ponta dos cabelos. É bom ser criança. Olha lá, é quase manhã. Tem uma neblina que cobre toda a cidade. Não há mais metrô Vila Madalena. Quisera fosse o fim. Pra nunca mais pensar. Pra nunca mais doer. Pra nunca mais fracasso.
O amor, o amor eu deixei ali fechado numa caixa de papelão. Só levo uma lente fotográfica pra registrar novas memórias e desapegos. Me dá a chave do seu carro. Quero dar umas voltas pelo centro velho de São Paulo. Eu te vi de novo naquela noite. O mesmo sorriso, as mesmas paredes, mas tudo diferente. Seria verdade se não fosse tudo mentira. Eu fiz dessa história um romance. Você nunca vai entender a que ponto cheguei e todas as coisas boas que você me fez sentir. Tenho saudade do que já foi. Uma frase que foi sua e que agora é minha.
Fico sentada no banco da rua e pensando. Morri. Uma parte em mim não existe mais. Prazer, senhora desconhecida. Você tem pernas grossas e lábios carnudos. Dança essa canção pra mim e tira a roupa bem devagar. Fique perto daquele precipício. Não temos lobos. Não temos demônios. Não temos ninfas. É só você e eu. Esse corpo descontrolado a procura de sexo e anfetaminas. Agora é só mais um passo e cair. Suavemente. Lá embaixo te diremos adeus. E colocaremos seu longo cabelo cacheado sobre os arranhões da face. Mas não haverá canhões nem totem. Talvez um bilhete de adeus. “Saudade. A gente se vê.”
Camaleoa
2 comentários:
Lendo você, me deu uma saudade grande de coisas que nem vivemos. Beijo. pt
Puta merda...que literatura de merda...escreve mal pra caralho
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